Compostagem para iniciantes

Compostagem para iniciantes

Esta semana partilhámos nas nossas redes sociais este artigo do jornal Expresso que revelou que em 2017 os portugueses produziram quase 5 milhões de toneladas de resíduos urbanos – mais 2,3% do que em 2016. Cada português produziu em média 40Kg de resíduos por mês e 473Kg por ano, sendo que cerca de 20% correspondem a resíduos alimentares.

O consumismo desenfreado é um dos principais fatores para este aumento – na verdade, estima-se que a grande maioria daquilo que adquirimos se converta em lixo em apenas 6 meses. No entanto, também é preocupante o facto de apenas 38% do lixo produzido em Portugal ser reciclado e da deposição de resíduos urbanos biodegradáveis em aterro ter aumentado para 43% – mais 2% do que em 2016.

Tanto neste blog como nas nossas redes sociais (facebook e instagram), temos vindo a apelar aos nossos seguidores a fazerem escolhas mais sustentáveis no dia-a-dia, a considerarem cada compra e a colocarem no lixo indiferenciado apenas os resíduos que não conseguirem reutilizar ou reciclar. 

Photo by Luka Siemionov from Pexels

Desta vez, vamos abordar a compostagem – um método simples e eficaz de reduzir a quantidade de lixo que acabaríamos, de outra forma, por deitar fora.

O que é o processo de compostagem?

A compostagem é um processo biológico através do qual microrganismos e insetos decompõem a fracção orgânica dos resíduos originando a produção de composto. O composto é uma substância homogénea, de cor castanha, com aspecto de terra e muito rica em nutrientes, que pode ser utilizado como substrato e fertilizante orgânico.

Que materiais podem ser usados ?

Quase todos os restos orgânicos da cozinha e jardim podem ser utilizados para fazer compostagem, mas temos de o fazer nas proporções adequadas.

Os materiais são habitualmente divididos em verdes e castanhos, consoante o seu teor de humidade e nutrientes.

De igual forma, é importante saber o que não se deve colocar no compostor:

  • restos de carne, peixe ou marisco
  • productos lácteos
  • cinzas e beatas de cigarro
  • citrinos
  • medicamentos e resíduos de plantas tratadas com químicos
  • excrementos de animais domésticos
  • resíduos não biodegradáveis, como plástico e vidro

Como fazer a compostagem?

É muito importante escolher bem o local – este deve ser relativamente seco, arejado e abrigado do vento para que o composto não arrefeça nem seque. Convém que esteja à sombra no Verão e ao sol no Inverno.

O recipiente deve permitir uma boa drenagem e o conteúdo deve ser remexido periodicamente para permitir arejamento e para que haja uma boa mistura de materiais castanhos e verdes. 

A forma como se colocam os resíduos no compostor deve obedecer a uma série de princípios para garantir as melhores condições de compostagem:

  • no fundo do compostor deve colocar-se, aleatoriamente, ramos grossos que promovam o arejamento e impeçam a compactação
  • adicionar uma camada de 5 a 10cm de materiais castanhos
  • adicionar uma mão cheia de terra ou composto já pronto. Esta deve conter microrganismos suficientes que vão iniciar o processo de compostagem
  • adicionar uma camada de materiais verdes;
  • cobrir com outra camada de materiais castanhos – no compostor devemos colocar sempre os resíduos numa proporção de 2 castanhos para 1 de verdes;
  • regar cada camada de forma a manter um teor de humidade adequado
  • cortar os resíduos castanhos e verdes em pedaços pequenos para acelerar o processo de compostagem
  • a última camada deve ser sempre de resíduos castanhos de modo a disfarçar os odores do material verde

Photo by Lukas from Pexels

O composto pode demorar entre 4 e 12 meses até estar pronto a ser utilizado. Antes de o aplicar no solo, ele deve ser retirado do compostor e ser deixado a maturar por duas a três semanas.

Tipo de compostor

Existem vários tipos de compostor no mercado, mas havendo disponibilidade espacial, não é necessário grande investimento.

Um canto de terreno ou jardim, com uma cerca de madeira ou tijolo, onde se possa colocar no interior os resíduos a compostar, é suficiente. 

Os compostores de madeira são a opção mais popular. Existem várias formas e modelos: podem ser simples (uma só caixa); duplos ou triplos; com ou sem porta para facilitar a remoção do composto.

Existem também compostores de plástico, com maior variedade de formas e feitios, inclusive com a possibilidade de um tambor rotativo que permite o arejamento regular do composto.

Quais as vantagens?

Fazer compostagem em casa ajuda na redução da produção do lixo e reduz os custos e energia associados ao transporte e tratamento dos resíduos urbanos. Ao compostar estamos também a reduzir a quantidade de gases com efeito de estufa libertados para a atmosfera, particularmente gás metano.

O projeto Terra à Terra da LIPOR (Serviço Intermunicipalizado de Gestão de Resíduos do Grande Porto) promove a redução dos resíduos orgânicos ao nível das habitações, prédios e instituições e quem mora na área, pode receber um compostor e um curso de compostagem gratuitos. A LIPOR estima que o processo de compostagem caseira permita uma redução de resíduos orgânicos em mais de 423,3 Kg/ano por compostor, pelo que com os 13.905 compostores implementados, existe o potencial de reduzir os resíduos orgânicos em 6.492 toneladas e evitar a emissão de 1.143 toneladas CO2 por ano.

Além disso, do nosso esforço obtemos um composto que pode ser usado para relvados, vasos, floreiras e caldeiras de árvores.

O composto resultante:

  • permite a reciclagem da matéria orgânica, devolvendo-a ao solo e melhorando a sua fertilidade 
  • ajuda a reter a água nos solos arenosos e dá porosidade aos solos argilosos
  • mantém a temperatura e o pH do solo
  • pode ser armazenado por longos períodos de tempo, sem odores, nem moscas
  • tem propriedades fungicidas naturais que ajudam a eliminar oragnismos causadores de doença no solo e nas plantas, reduzindo a necessidade de recorrer a herbicidas e pesticidas e, consequentemente, a contaminação e poluição dos solos

A compostagem caseira é muito fácil e qualquer pessoa com um pouco de espaço exterior o pode fazer. Mas caso compostar não seja uma opção viável, porque não perguntar a amigos, colegas ou familiares se podem compostar ou utilizar os nossos resíduos orgânicos para outros fins – como por exemplo alimentar animais?

A verdade é que quando colocado no lixo comum, o material orgânico vai acabar em aterros sanitários, os quais não reúnem as condições necessárias para a sua biodegradação aeróbia. Isto resulta na sua decomposição sem acesso a oxigénio, levando à libertação de metano, um gás com efeito de estufa muito mais potente que o dióxido de carbono em termos de produção de calor.

Nós vamos compostar! E vocês?

Até breve!

4 Comments

  • Joana Freitas Posted Outubro 28, 2018 9:25 pm

    Olá! Excelente artigo bastante esclarecedor.
    Tenho tentado iniciar a compostagem mas não reuno condições necessarias pois vivo num apartamento. Sei que poderia fazer vermicompostagem mas não encontro as caixas para o efeito. Já contactei a Lipor mas também não têm. Será que podem ajudar?

    • Joana Posted Outubro 29, 2018 8:06 pm

      Olá Joana.
      Em primeiro lugar, muito obrigado pelo comentário, é tão bom saber que os nossos artigos são úteis! Relativamente à questão colocada, pensamos que a vermicompostagem será a opção que mais se adapta a um apartamento. Dá uma vista a estes websites: http://www.vermi.pt/, https://www.eco-growing.com/ e https://bio-recycle.com/pt/.
      Caso não encontres uma opção adequada para ti, podes sempre falar com os teus amigos, familiares e colegas (ou mesmo perguntar em grupos do facebook da tua zona)! Talvez eles possam ficar com os teus restos orgânicos (podes congelar os restos de frutas e vegetais e entregar semanalmente ou de duas em duas semanas, por exemplo). Podes também contactar a tua Câmara Municipal – alguns municípios têm compostores comunitários. Esperamos ter ajudado!

  • Marta Martins Posted Maio 1, 2020 4:56 pm

    Boa tarde, desde já um muito obrigado pelo excelente artigo.
    A minha questão é bastante simples como criar um compostor biológico (não vermicompostor) para quem vive em apartamentos? E se possível usando matérias sustentáveis? Obrigado

    • ecosisters Posted Maio 7, 2020 6:09 pm

      Olá Marta,
      Antes de já obrigada pelo feedback.
      Apesar de não ter experiência neste tema, sei que é possível fazer compostagem em espaços limitados desde que haja algum fator que acelere o processo de compostagem (no caso da vermicompostagem, seriam as minhocas!).
      Já ouvi falar na compostagem Bokashi, por exemplo, que consiste na adição de um fermento que acelera do processo. Deste modo é possível criar composto num recipiente bem pequeno. Faça uma pesquisa para ver se este método se adapta às suas circunstâncias!
      Relativamente à sustentabilidade, é uma questão complexa já que depende de imensos fatores; principalmente se recorrer a métodos de compostagem que necessitam de aditivos (sejam minhocas, fermentos ou outros). É uma questão de optar pelo que faz mais sentido para si e para o seu estilo de vida.
      Permita-me tambem partilhar este website que é ótimo para fazer partilha de lixo biológico – quem sabe não tem alguém disposto a compostar o seu lixo biológico perto de si: https://sharewaste.com/share-waste

      Obrigada!

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