As abelhas e nós: Parte III

Afinal, qual é a relação entre as abelhas e o planeta?
Qual é o seu papel nos ecossistemas; a sua importância?
E o que nos importa a nós? Afetam-nos, de algum modo?
Porque estão as populações destes insetos em declínio?
O que podemos nós fazer?

As perguntas eram muitas e por isso decidimos dividir o artigo “As abelhas e nós” em partes:
Parte I: Importância das abelhas
Parte II: Causas do declínio das populações de abelhas
Parte III: Possíveis soluções

Esperamos que esta série de artigos vos tenha inspirado a olhar para estes seres de um outro modo.

PARTE III: POSSÍVEIS SOLUÇÕES

Nas parte I & II escrevemos sobre os motivos pelos quais as abelhas são importantes para a vida na Terra e porque estão a desaparecer.
Hoje escrevemos sobre o que podemos fazer para contrariar esse declínio e criar condições favoráveis a que estes insetos façam o seu trabalho para a Mãe Natureza.

1) Hortas & Jardins

Parece óbvio, mas é mesmo importante referir: as nossas hortas e jardins são os locais ideais para ajudar estes bichos. Criar espaços verdes com plantas que atraem abelhas vai permitir que elas tenham acesso ao néctar de que necessitam para se alimentarem e fazerem a sua magia (a polinização!).
Com um bocadinho de organização (e sabedoria) na hora de escolher as flores que queremos plantar, é possível ter uma variedade de plantas que florescem durante quase todo o ano.

As abelhas adoram partes do jardim mais descuradas, com ervas altas, sebes e muitas flores. Caso o espaço disponível for grande, não será má ideia deixar uma parte por cuidar durante mais tempo… As abelhas vão agradecer de certeza!
A vegetação espontânea (incluindo “ervas-daninhas”) têm uma importância muito grande para estes insetos polinizadores e por isso cortar esta vegetação quando começa a aparecer, pode ter um impacto negativo no seu ciclo de vida. O melhor será, tanto quanto possível, deixar a vegetação espontânea crescer várias semanas antes de a cortar, dando oportunidade para estes insectos usufruírem dela (saber mais).

Jardins pequenos não são desculpa para deixar de plantar. Plantar em vasos, canteiros ou floreiras também é eficaz e irá satisfazer o apetite de alguns insetos polinizadores – uma varanda florida também tem o seu valor! Além disso, sempre existe a opção de criar um jardim vertical, de modo a aproveitar espaços limitados (inspirações no pinterest aqui).

Photo by Daria Shevtsova from Pexels

As abelhas polinizam todo o tipo de flores mas são  particularmente atraídas por plantas aromáticas, especialmente as que dão flores miúdas com tonalidades claras e dão floração em massa.
Algumas plantas que mais atraem abelhas são: prímula, budléia, malmequer, tomilho, alfazema, salvia, alecrim, manjericão, funcho, orégão, hortelã, coentros ou o dente de leão (podes ler mais sobre este tópico aqui ou aqui),

2) Hotéis de Insetos

“Hotéis de insetos” são pequenas construções que atraem insetos polinizadores como borboletas, joaninhas e abelhas solitárias. É mais simples do que parece e é uma atividade educativa que pode ser levada a cabo em escolas mas também lá por casa, com os garotos. É uma ótima oportunidade para testemunhar a relação e interdependência entre seres vivos.
Um fantástico guia de como criar e manter um hotel de insetos pode ser encontrado no site Ciência Viva.
Ao criar hotéis de insetos estamos não só a oferecer uma casa a estes bichos, mas também estamos a promover a polinização no nosso jardim e horta.

http://www.cienciaviva.pt/

3) Mel

Quando praticada de um modo ético e sustentável, a apicultura beneficia as populações de abelhas e o ecossistema onde a colmeia está inserida (saber mais).

No entanto, as abelhas devem ser protegidas independentemente de haver alguma a coisa a ganhar no processo (i.e. mel para consumo humano). Isto porque caso elas não sejam protegidas, também nós corremos riscos já que as abelhas são responsáveis por polinizar cerca de um sexto das espécies de plantas com flores em todo o mundo e aproximadamente 400 tipos diferentes de plantas agrícolas (saber mais).

Além disso, muitas vezes, o foco principal da apicultura não é proteção das abelhas, havendo práticas nesta indústria que podem acabar por comprometer a saúde das colmeias – se queres ler mais sobre este assunto, espreita este artigo (em inglês).

Outro motivo pelo qual muitas pessoas optam por dizer não ao mel consiste no facto de quando as abelhas polinizam zonas onde agrotóxicos (pesticidas) são utilizados, vestígios destas substâncias podem acabar no mel consumido por humanos. Claro que ao consumir mel orgânico e produzido de um modo sustentável, reduzimos a chance de isso acontecer.

Em suma, se quisermos proteger as abelhas, uma das coisas que podemos fazer é reduzir o consumo de mel ou optar por apicultores que tenham práticas sustentáveis e éticas.

Photo by Timothy Paule II from Pexels

4) Fator Medo

As abelhas permitem que tenhamos acesso a uma grande variedade de alimentos e têm um papel vital em vários ecossistemas. Trabalham arduamente para retirar pólen e néctar das plantas para alimentar as larvas e sobreviver durantes os meses frios. Elas não estão interessadas em picar humanos e, quando o fazem, é por se sentirem ameaçadas.
Quando uma abelha pousar na nossa pele, simplesmente espere que ela saia. É mais fácil dito do que feito e muitas pessoas têm medo de abelhas e de insetos que produzem aquele zumbido característico – afinal, ninguém gosta de ser picado! Mas estes bichos não têm particular interesse em nos picar até porque, muitas vezes, elas morrem depois de o fazer.
No entanto, é preciso saber diferenciar entre vespas e abelhas porque as vespas sim, podem picar sem motivo aparente (saber mais), o que nos leva à próxima dica.

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6) Vespa vs Abelha

Estes insetos pertencem à mesma ordem dentro da classificação dos insetos (Hymenoptera) mas a famílias diferentes: Apidae (abelhas) e Vespidae (vespas). Dentro de cada uma dessas famílias existem inúmeras espécies de abelhas e de vespas, mas existem algumas diferenças características: as vespas têm uma área mais estreita entre o tórax e o abdómen, ao contrário das abelhas, que têm o abdómen maior. Além disso, as abelhas têm mais pêlos, o que não se verifica nas vespas (saber mais).

Ao contrário do que se possa pensar, nem todas as espécies de vespas têm um impacto negativo nos ecossistemas e, em particular, nas abelhas.
A vespa velutina, também conhecida como vespa asiática, é uma espécie exótica invasora de origem asiática que foi involuntariamente introduzida em Portugal no Alto Minho em 2011. Como qualquer espécie exótica invasora, tem impactos negativos nos nossos ecossistemas pela competição com espécies locais que ocupam os mesmos nichos. A vespa velutina é apontada como um dos fatores contribui para o decréscimo das populações de abelhas em portugal (Parte II: Causas do declínio das populações de abelhas). No entanto, espécies autóctones (nativas) de vespas, como a vespa crabro desempenham um reconhecido papel como controlador das populações de outros insetos. Infelizmente, destruições equivocadas e enganos estão a ocorrer repetidamente, o que pode provocar um desequilíbrio nos ecossistemas uma vez que são espécies semelhantes e competidoras pelos mesmos recursos, sendo que o enfraquecimento das populações de Vespa crabro abre ainda mais as portas à vespa asiática (saber mais). Aqui podem-se encontrar as diferenças entre as principais espécies de vespas – Ficha de identificação da espécie.

Os ninhos de vespas velutinas devem ser reportados às autoridades, quer através da linha SOS Ambiente e Território (808 200 520), do formulário da plataforma sosvespa ou simplesmente reportados à junta de freguesia.

Ficha de identificação da espécie: Possíveis confusões com outros insetos – Adaptado por ICNF, I.P.

7) Evitar pesticidas

Óbvio, mas não podemos deixar de mencionar. Este é um dos motivos apontados para o declínio de populações de abelhas e o melhor é evitar ao máximo o uso de pesticidas, principalmente nas nossas hortas e jardins. Quando estritamente necessário, será importante pesquisar estes produtos e optar por um que não prejudique as abelhas. Preferir, sempre que possível, produtos orgânicos e livres de pesticidas também é uma boa maneira de proteger estes nossos amigos peludos.

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Até breve!