As abelhas e nós: Parte II

Afinal, qual é a importância das abelhas no meio ambiente?
Qual é o impacto do seu declínio nos ecosistemas? E para o Homem, em particular?
Porque estão as populações destes insetos em declínio?
O que podemos nós fazer?

É um tema complexo e por esse motivo decidimos dividir este artigo:
Parte I: Importância das abelhas;
Parte II: Causas do declínio das populações de abelhas
Parte III: Possíveis soluções

Até há relativamente pouco tempo, também nós não tinhamos noção do importante papel que as abelhas tinham na vida no nosso planeta.
São insetos polinizadores, sim. Mas, realisticamente, o que poderá acontecer caso haja uma extinção em massa das abelhas?
Convidamos os leitores que queiram saber mais sobre a influência destes insetos nos ecossistemas a lerem a primeira parte deste artigo (aqui) onde escrevemos sobre a sua importância e o seu potente papel na conservação da biodiversidade na Terra. Esperamos que, como nós, depois de saberem um pouco mais sobre o trabalho das abelhas, olhem para elas com outros olhos, com o respeito que estas criaturas peludas merecem e que façam o que estiver ao vosso alcance para as proteger – nem que seja espalhar a palavra!

Sem mais, vamos então perceber quais são os principais motivos do declínio das populações de abelhas, para que seja mais fácil perceber de que modo podemos ajudar a reverter o fenómeno.

PARTE II: CAUSAS DO DECLÍNIO DAS POPULAÇÕES DE ABELHAS

1) Urbanização e Perda de Habitats

Um estudo sobre os fatores do declínio dos insetos a nível global publicado em 2019 concluiu que a perda de habitat devido à agricultura intensiva é o principal agente causador (saber mais). O mesmo estudo refere que mais de 40% das espécies de insetos estão ameaçadas de extinção. A taxa de extinção está a ser oito vezes mais rápida do que a dos mamíferos, aves e répteis.

À medida que as cidades crescem, que se constroem novas estradas e a agricultura se torna mais intensiva, as quantidade de flores, sebes e jardins disponíveis para as abelhas encontrarem pólen vai reduzindo. A redução de alimento para as abelhas é um fator muito importante no declínio das suas populações a nível global, bem como a extinção de algumas espécies em alguns países (saber mais).

2) Alterações Climáticas

Muitas das consequências previstas das mudanças climáticas, tais como aumento de temperatura, mudanças nos padrões de precipitação e eventos climáticos mais irregulares ou extremos, poderão ter um impacto negativo nas populações de polinizadores.

Com o amento das temperaturas médias, a floração ocorre mais cedo na Primavera, podendo levar a uma dessincronização entre a época em que as flores produzem o pólen e o ciclo de vida dos insetos polinizadores, mais propriamente a época em que as abelhas estão prontas para se alimentarem desse pólen (saber mais).
Resultados de uma experiência na Universidade de Würzburg, na Alemanha, sugerem que até pequenas desincronização (três ou seis dias) entre estes dois ciclos (isto é, o da floração e o das abelhas) podem afetar negativamente a saúde das abelhas, tornando-as menos aptas para reproduzir e menos resistentes a predadores ou parasitas (saber mais).

Este vídeo (em inglês) explica o trabalho de uma equipa de investigadores que está a estudar o impacto das alterações climáticas nas abelhas e nas flores.

3) Agrotóxicos

Os agrotóxicos são produtos ou substâncias químicas utilizados na agricultura para controlar insetos, doenças, ou espécies de plantas invasoras que causam danos às plantações.

As vantagens de proteger os cultivos são óbvias: produz-se mais em menos tempo e existe menos desperdício de alimentos e de recursos naturais como a água.

No entanto, muitos agrotóxicos frequentemente usados têm um efeito nefasto no meio ambiente. Exemplo disso mesmo são um grupo de agrotóxicos chamado neonicotinóides.
Depois do seu uso ter sido aprovado na UE nos anos 90, os neonicotinóides demonstraram prejudicar em larga escala insetos polinizadores, incluindo abelhas, e o meio ambiente no geral (saber mais). Este tipo de substâncias afetam o sistema nervoso de insetos, o que causa desorientação, incapacidade em se alimentarem e, consequentemente, morte (saber mais). Vários estudos indicaram também toxicidade para saúde humana (saber mais). Em 2013, a Comissão Europeia proibiu o uso de 3 neonicotinóides altamente tóxicos para as abelhas em culturas atrativas para as mesmas: imidaclopride, a clotianidina e o tiametoxame (saber mais). Posteriormente, em 2018, a Comissão Europeia proibiu todas as utilizações ao ar livre destes 3 agrotóxicos (saber mais).

Apesar desta ter sido um passo de extrema importância para a proteção destes insetos, é importante notar que esta é a situação na UE, e este grupo de agrotóxicos continua a ser usado em vários outros países. Além disso, substâncias químicas com efeito semelhante continuam a ser usadas a nível global.

Uma investigação em Santa Catarina, no Brasil, revelou que cerca de 50 milhões de abelhas morreram envenenadas por fipronil em janeiro de 2019. Este agrotóxico, proibido em países como o Vietnam, Uruguai e África do Sul por causar mortalidade em abelhas, estava a ser usado em culturas de soja na região (saber mais).

Mesmo em países europeus, onde o uso de vários agrotóxicos considerados nocivos é proibído, muitas vezes eles continuam a ser usados. Em junho de 2019, dezenas de abelhas contaminadas com pesticidas que não podem ser usados na Europa foram encontradas mortas na horta comunitária da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (saber mais).

No entanto, estudos recentes têm vindo a demonstrar que agrotóxicos considerados inertes para insetos polinizadores, podem não ser assim tão inofensivos (saber mais).

É extremamente importante que as práticas agrícolas sejam ambientalmente sustentáveis e que causem o mínimo de impacto possível. Os insetos polinizadores têm de ser preservados já que sem eles, o cultivo de várias plantas tornar-se-ia bastante difícil.

4) Predadores e Parasitas

A vespa velutina, tradicionalmente conhecida como vespa asiática, é uma das espécies que ameaça as abelhas. Esta vespa caça abelhas no ar: paira frente à colmeia, inibindo a saída das abelhas levando à destruição de toda a colmeia (saber mais).
A vespa asiática foi identificada em Portugal pela primeira vez em 2011 no distrito de Viana do Castelo. Tem vindo a deslocar-se para o sul do país, sendo que Lisboa, até agora, é o distrito mais a sul onde existe a presença desta vespa.
Os distritos onde se registaram mais denúncias, ao longo de 2019, foram no Porto (133), Braga (92), Viseu (60), Aveiro (53) e Coimbra (50) (saber mais).

Rádio Renascença: https://rr.sapo.pt/2019/09/20/pais/como-chegou-a-vespa-asiatica-a-portugal-o-que-fazer-se-for-picado-conheca-as-respostas-aqui/noticia/164859/

A varroose é uma doença da abelha melífera Apis mellifera L. causada pelo ácaro varroa, oriundo da Coreia e do Japão. O ácaro varroa é um parasita externo desta espécie de abelhas que provoca malformações nas larvas e promove a transmissão de vários virus às larvas e abelhas adultas (saber mais). Atualmente, a varroose é considerada uma doença endémica em Portugal e na maior parte da Europa, sendo que em Portugal, existe um Plano de Luta Contra a Varoose que delineia estratégias para o controlo deste parasita.

 

A terceira parte deste artigo vai focar-se nas maneiras em que podemos ajudar as abelhas, para que elas possam fazer o seu trabalho no ecossistema que, como já demonstrámos, é de extrema importância não só para nós, mas imensas espécies de plantas e animais.

 

Até breve!